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Chaperonas: guardiãs invisíveis que evitam doenças e câncer

Redação

Chaperonas: guardiãs invisíveis que evitam doenças e câncer

Todos os dias, nossas células fabricam milhares de proteínas. Essas moléculas são responsáveis por quase tudo que acontece no corpo. Para funcionar, cada uma delas precisa estar na forma tridimensional exata, um processo comparado à montagem de um origami microscópico.

Basta uma proteína se enovelar da forma errada para que perca sua função ou se torne tóxica. Isso pode desencadear doenças graves, como Alzheimer ou câncer. Para evitar esse colapso, o organismo desenvolveu um sistema de controle de qualidade. Uma equipe de guardiãs moleculares acompanha a produção de perto e garante que todas estejam na posição correta.

No Instituto de Química (IQ) da Unicamp, um laboratório que faz parte do Instituto Nacional de Biologia Estrutural e Bioimagem (INCT-INBEB) estuda essas supervisoras. Elas são chamadas de chaperonas. O termo tem origem nos séculos XVIII e XIX, quando as chaperonas eram damas que acompanhavam jovens solteiras em público para evitar comportamentos inadequados.

Na biologia, a analogia é precisa. O interior das células é denso e caótico. Nesse ambiente, as chaperonas atuam como escoltas moleculares. Elas impedem interações indesejadas e favorecem que as proteínas adquiram a conformação necessária para funcionar corretamente.

Desde os primeiros estudos, na década de 70, foram descobertas três principais famílias de chaperonas. A mais conhecida funciona como uma "oficina de reparo", oferecendo nova oportunidade para proteínas mal enoveladas. Outra acompanha proteínas recém-produzidas até que atinjam sua estrutura definitiva.

Uma das chaperonas mais intrigantes para a ciência atual é a Hsp90. Durante décadas, sua função foi considerada um enigma. Atualmente, sabe-se que ela atua em cerca de 10% das proteínas humanas, como um mecanismo essencial na prevenção ao desenvolvimento de cânceres. Ela age sobre grandes complexos de proteínas envolvidos na expressão dos genes, no reparo do DNA e na divisão celular.

Nos últimos anos, os avanços tecnológicos, especialmente com a técnica de criomicroscopia eletrônica, permitiram uma compreensão mais detalhada do funcionamento dessa maquinaria. Em um artigo recente de revisão, a equipe detalhou que a Hsp90 não trabalha sozinha. Ela faz parte de enormes complexos moleculares e coordena a montagem de processos fundamentais.

Papel no câncer

O estudo das chaperonas revela uma dualidade na biologia molecular. O mesmo sistema que mantém o funcionamento saudável das células pode ser explorado pelo câncer para sustentar o rápido crescimento de tumores. Em linhagens de câncer de mama, a maior expressão da co-chaperona da Hsp90 intensificou a resposta a tratamentos quimioterápicos.

Por outro lado, uma atuação maior desta chaperona em tumores colorretais se correlaciona com mau prognóstico dos pacientes. Isso indica que não é uma boa ideia bloquear completamente a chaperona Hsp90, pois ela é essencial para praticamente todas as células do organismo.

Em vez disso, os pesquisadores buscam maneiras de interferir apenas em interações específicas dentro dessa rede organizada. A ideia é agir nos sistemas que auxiliam as chaperonas, comprometendo interações mais específicas de determinados tumores e preservando as funções das células saudáveis.

Apesar dos avanços recentes, muitas perguntas permanecem em aberto. Ainda não se sabe exatamente como essa rede de chaperonas é regulada em diferentes tecidos. Também falta entender quantas moléculas participam de cada complexo e como essas interações mudam à medida que uma doença ou o envelhecimento progride.

Essas proteínas têm potencial promissor para futuros biomarcadores ou até alvos terapêuticos. A história das chaperonas aponta para a importância dessas equipes de apoio. Elas garantem que os protagonistas moleculares estejam posicionados corretamente, na hora certa e com a conformação apropriada.