Pular para o conteúdo
Cirurgia daCatarata

Excesso de informação: como nos afeta?

Redação

Excesso de informação: como nos afeta?

O excesso de informação está nos adoecendo. Estímulos demais e a autocobrança imposta pela tecnologia geram fadiga e ansiedade, demandando a desconexão urgentemente.

No século 20, a grande doença social talvez tenha sido a ausência de acesso. Agora, no século 21, é possível que o adoecimento venha do excesso de estímulo e da incapacidade de silenciar.

Mohamed Parrini, economista, mestre em filosofia e CEO do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, escreve que sente um cansaço contínuo, que não decorre apenas do excesso de trabalho. O sentimento é de um mundo girando cada vez mais rápido, talvez por estarmos vivendo uma das maiores transformações da história da humanidade: a conexão permanente entre cérebro, informação e inteligência artificial.

Durante séculos, a humanidade lutou contra a escassez de conhecimento. Informação era poder porque era rara. Bibliotecas, universidades e centros de pesquisa funcionavam como guardiões daquilo que poderia ou não ser considerado verdade. O grande dilema civilizatório era o acesso. Agora, o problema já não é a falta de informação, mas nossa incapacidade de processá-la, filtrá-la e hierarquizá-la.

Há mais conteúdo disponível em um único dia do que talvez um indivíduo do século 19 consumisse durante toda a vida. Nossa nova enciclopédia deixou de ser organizada por universidades ou especialistas e passou a ser mediada por algoritmos. TikTok, Instagram e outras plataformas passaram a disputar espaço com instituições tradicionais na formação do conhecimento e da opinião pública.

O fenômeno contemporâneo é mais sofisticado, e talvez mais perigoso. A autoridade científica foi parcialmente achatada pelos algoritmos de engajamento e por oradores de redes sociais. Nunca foi tão simples construir uma aparência de autoridade. Uma narrativa convincente, uma estética cuidadosamente editada e algumas frases de efeito podem transformar qualquer pessoa em referência instantânea sobre alimentação, longevidade, saúde mental ou performance humana.

Nunca monitoramos tanto nosso corpo. Nunca pensamos tanto em performance, longevidade e otimização. Saúde deixou de significar apenas ausência de doença e passou a representar uma busca contínua por aperfeiçoamento e juventude. Existe um custo psicológico nessa vigilância permanente, pois estamos transformando o intelecto coletivo em um feed infinito de estímulos, validações instantâneas e autocorreção permanente.

Falta-nos serenidade cognitiva. O filósofo francês Michel Foucault escreveu sobre sociedades que disciplinavam corpos por meio da vigilância institucional. A ironia do nosso tempo é que dispensamos os guardiões externos. Nós mesmos assumimos o papel de vigias de nós mesmos, convertendo a tecnologia e a inteligência artificial em ferramentas de uma autocobrança implacável.

Paradoxalmente, nunca tivemos tanto conhecimento sobre saúde e talvez nunca tenhamos convivido com tanta ansiedade e solidão. Nossos jovens estão ansiosos. Nossos idosos, solitários. A velocidade com que geramos informações passou a superar nossa capacidade de assimilá-las. Uma das tensões silenciosas do nosso tempo talvez esteja aí: não na falta de respostas, mas no excesso delas.

Talvez o grande remédio para a nossa época não venha embalado em cápsulas, dietas restritivas ou relatórios de performance. Diante de telas que nunca dormem e de dados que nunca calam, o verdadeiro ato de cura e de preservação mental reside na coragem de desconectar. Precisamos resgatar o direito ao mistério do próprio corpo, aceitar a nossa terna imperfeição e finitude e, finalmente, devolver ao silêncio o poder de curar os nossos excessos.