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Mortes súbitas no fisiculturismo: o que explica?

Redação

Mortes súbitas no fisiculturismo: o que explica?

A morte do fisiculturista Mailson Araújo, de 35 anos, ocorrida na noite de segunda-feira, 13, em Alagoinhas (BA), trouxe de volta o debate sobre os limites físicos e a saúde cardiovascular de atletas de alta performance. Segundo a imprensa local, Mailson passou mal em casa e, apesar das tentativas de reanimação feitas por sua mãe, que é técnica em enfermagem, e do atendimento dos bombeiros e do Samu, ele não resistiu.

Ativo nas redes sociais, onde tinha 35 mil seguidores, o baiano compartilhava uma rotina de treinos intensos e alimentação regrada. Familiares disseram que ele mantinha hábitos saudáveis. O caso ocorre pouco tempo depois da morte do atleta e influenciador paulista Gabriel Ganley, de 22 anos. No caso de Ganley, exames apontaram cardiomiopatia hipertrófica como causa do óbito, uma alteração estrutural com espessamento do músculo do coração, comumente associada ao uso de esteroides anabolizantes.

O laudo com a causa da morte de Mailson ainda não foi divulgado. Em suas redes, ele não falava sobre uso de anabolizantes, mas divulgava perfis de farmácias que vendem esses produtos e também alertava sobre riscos de substâncias como a trembolona. Casos como o dele e o de Ganley chamam a atenção para os riscos associados ao esporte, ligados a condições genéticas, esforço extremo e uso de substâncias para favorecer a hipertrofia muscular.

O que é o fisiculturismo

Diferente de modalidades focadas em desempenho funcional, o fisiculturismo é uma competição estética. O objetivo é atingir o máximo de desenvolvimento muscular com o mínimo de gordura corporal e retenção de líquidos. Para alcançar padrões que desafiam a genética humana, a modalidade tem relação com o uso de recursos ergogênicos farmacológicos. Existem categorias de "fisiculturismo natural", mas as de elite frequentemente envolvem esteroides anabolizantes, hormônios tireoidianos e diuréticos.

Gabriel Ganley, por exemplo, começou defendendo a prática natural, mas depois revelou que passou a usar hormônios para competir em alto nível.

Impacto dos anabolizantes no coração

Os anabolizantes estimulam o crescimento muscular em todo o organismo, incluindo o coração. Estudos mostram que existem receptores de testosterona nas células do coração, que podem levar à hipertrofia do músculo cardíaco. Para quem tem mutação genética, como a cardiomiopatia hipertrófica, os riscos aumentam. O cardiologista Elry Medeiros, do Núcleo de Medicina Afetiva e do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, explicou que a pessoa pode desenvolver mais hipertrofia e maior risco de arritmias e obstrução da saída de sangue do coração.

O uso de hormônios como testosterona também pode aumentar a pressão arterial, causar retenção de líquido e ativar o sistema simpático da adrenalina. Além disso, alteram o colesterol, aumentando o LDL e reduzindo o HDL, o que favorece a formação de placas de gordura nas artérias e o risco de infarto. Também há maior risco de trombose pulmonar e cerebral, além de problemas renais. Medeiros lembra que esses danos podem ser irreversíveis.

Um estudo publicado no periódico da American Heart Association acompanhou mais de 60 mil pessoas por 11 anos. Usuários de anabolizantes apresentaram risco três vezes maior de infarto agudo do miocárdio e risco quase nove vezes maior de desenvolver cardiomiopatia. O médico ressalta que não existe uso seguro dessas substâncias para fins estéticos. A testosterona sintética só é indicada para pessoas com hipogonadismo, condição rara de baixa produção do hormônio.