A percepção da dor não depende apenas de fatores físicos. Valores sociais, classe e história pessoal influenciam diretamente a forma como cada pessoa sente e expressa o sofrimento. A cinesiologista Mariana Schamas discute como o ambiente e as crenças coletivas afetam a relação com a dor.

Durante a infância, frases como “engole esse choro” ou “aguenta firme” ensinam limites e condicionam comportamentos. Dependendo do contexto, esses ensinamentos deixam de ser apenas limites e se tornam um modo de viver. A cultura, definida pelo antropólogo Michel Alcoforado como um conjunto de sentidos construídos coletivamente, tem força para dar lugar no mundo e influencia a maneira como o cérebro interpreta a dor.

Estudos socioculturais citados no livro Antropologia da Dor, de David Le Breton, mostram diferenças entre grupos. Trabalhadores rurais, por exemplo, costumam ter uma relação de resistência com o corpo. A dor é ignorada e quem suporta mais é visto como valente. A busca por ajuda ocorre apenas quando a doença paralisa o trabalhador.

Nas classes médias e privilegiadas, há maior vigilância sobre o corpo e atenção aos conselhos médicos. Os sintomas são tratados como sinais de alerta. Já a população mais pobre, muitas vezes, aprendeu a ignorar os sintomas e seguir em frente. Essa diferença cultural também aparece no atendimento de saúde, com a ideia de que “o pobre aguenta mais dor”.

A dimensão social do sofrimento mostra que duas pessoas com a mesma idade, gênero e intensidade de dor, mas em condições sociais diferentes, lidam com o problema de maneiras distintas. A história de vida e o ambiente moldam o nível de sofrimento e a forma de tratamento.

A dor é subjetiva e individual. No caso da dor crônica, as causas são multifatoriais e o tratamento deve envolver diferentes especialidades. Como as causas são biopsicossociais, cuidar da dor também é um ato social e cultural.

Juliana Moraes

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