Pesquisadores dos Estados Unidos anunciaram dois novos casos de potencial cura do HIV durante a 26ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026), realizada no Rio de Janeiro. Os pacientes não apresentam sinais detectáveis do vírus há mais de um ano, mesmo após interromperem o uso de medicamentos antirretrovirais.
Com os novos relatos, sobe para 13 o número de pessoas no mundo consideradas curadas ou em remissão de longo prazo da infecção. Os resultados foram divulgados na segunda-feira, 27, e devem ser detalhados em publicações científicas.
Os dois pacientes desenvolveram cânceres no sangue e precisaram passar por um transplante de medula óssea. Os doadores escolhidos possuíam a mutação genética rara CCR5-delta32, que impede que as formas mais comuns do HIV entrem nas células do sistema imunológico.
O primeiro caso, chamado de “paciente de Kansas City”, recebeu os diagnósticos de HIV e leucemia em 2018. O transplante foi feito em outubro de 2020. Em fevereiro de 2025, os médicos suspenderam os antirretrovirais. Quatorze meses depois, os exames continuam sem detectar o vírus.
O segundo caso, sem identidade divulgada, era mais complexo. O paciente tinha HIV, hepatite B e variantes do vírus que usam receptores diferentes para infectar células. Um ano após parar o tratamento, não havia vírus capaz de se multiplicar nem material genético completo do HIV no organismo. A hepatite B voltou a se replicar poucos dias após a suspensão dos medicamentos.
Segundo o infectologista Ricardo Sobhie Diaz, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a estratégia combina três mecanismos. Primeiro, quimioterapia e radioterapia eliminam as células da medula óssea. Depois, o transplante com a mutação CCR5 reconstrói o sistema imunológico com células resistentes ao HIV. Em alguns casos, a “reação de enxerto contra hospedeiro” ajuda a destruir células remanescentes que escondem o vírus.
Diaz afirma que, nos casos de transplante de medula, é possível falar em cura. “Eu posso falar com certeza que eles estão curados”, disse. No entanto, o procedimento tem alto risco de complicações e mortalidade, sendo indicado apenas para pacientes com doenças fatais, como leucemias. “A gente mostra o sucesso, mas existem muitos fracassos”, completou.
Para os especialistas, os novos casos reforçam que a cura do HIV é biologicamente possível, mas ainda depende de um tratamento complexo e restrito. O desafio agora é desenvolver terapias que eliminem os reservatórios do HIV sem submeter os pacientes a um transplante agressivo.

